VIVER A DOIS E O TAL DO “DEPOIS”

Já ouvi vários relatos da vida a dois onde tudo fica para depois. Depois te ligo, depois conversamos, depois eu faço, depois eu falo, depois eu mudo, depois penso nisso, depois...depois...depois…Perguntas não faltam, o que minguam são as respostas “vivas”.

O viver nos coloca numa situação de desenvolvimento, pelo menos essa é a ideia. E essa visão parece ter mais destaque na cultura juvenil. Por qual razão? Talvez pelo modo de ser específico que expressa descobertas, valores e significados, em contraste com a rotina, e aquela parece ter mais vigor durante essa fase. Mas é isso mesmo? Será que perdemos a perspicácia durante a vida de casal ou é esta que perde a “cultura juvenil”? Ambas não combinam?

Quando a vida nos ensina a não cultivar o remorso pelo passado e nem focar no excesso de ansiedade pelo futuro, pressupomos que o momento é hoje. Quando há estratégia com base no horizonte, é possível estabelecermos duas situações: a primeira, esperar algo desse futuro e criar uma expectativa; a segunda, procurar ter algum “poder” em relação a essa perspectiva. No entanto, é certo que a frustração não ocorrerá se do acontecimento vindouro não gerarmos nenhuma esperança e nem a ganância pelo “poder”. Quem tem o condão de mudar o outro?

Diógenes, um filósofo que contestava o matrimônio e a vida em sociedade, tinha uma frase muito sagaz para elaborar seu pensamento, ele dizia: “procuro um homem”. Essa procura relacionava com sua verdadeira natureza, que ele vivesse conforme ela e fosse feliz, ou seja, que subsistisse condizentemente com a sua essência. E para isso, sua liberdade significava não possuir nada. E com base nessa filosofia de vida, disse para Alexandre, o Grande, que não esperava nada dele, desde que ele não tapasse o sol. E quantos na vida marital “tapam o sol” dos seus parceiros (as) com a falta de um diálogo profícuo?

Quando deixamos tudo para amanhã, esquecemos de observar a essência daquilo que nos uniu e fomos. E hoje, o que nos une? O depois? Leandro Karnal, historiador, diz que: “se o outro lhe irrita é porque ele se comunicou com algo seu. Só existe irritação via espelho. Se eu estou bem resolvido com alguma coisa, veneno só funciona se eu aceitar beber. Se não, vai ser só o oferecimento da raiva de alguém.” Será essa a razão de deixarmos tudo para depois?

Qual é o projeto de uma união entre duas pessoas? É morrer ou viver dela? E quando essa relação “morre”, existe vida depois? A esperança é uma virtude que nos faz desejar algo, mas até quando? Enquanto há vida, há esperança, chavão bem conhecido, mas a vida cessa quando terminamos um encontro de casal? Observe que quando nos unimos com outra pessoa, contribuímos muito para esse envolvimento inicial, com carinho, atenção e respeito, mas, e durante, ou após o casamento? Que tal, posteriormente, pensarmos sobre isso? Estaríamos sendo medíocres com essa atitude?

A mediocridade não é uma proposta de vida para ninguém, razão pela qual é aconselhável redigirmos nossos “artigos” até concluirmos a ideia. Quando nos recusamos a ser medíocres, buscamos o melhor no que fazemos, mas não necessariamente seremos os melhores. Essa é uma postura que pode ser promissora perante qualquer relação, exceto daquela repleta de depois. O diálogo traz conhecimento, forma consciência e gera atitudes. A ideia é ser perfectível e não perfeito, e dessa forma melhorarmos o que deve ser aprimorado.

Podemos fazer da relação a dois uma fonte de conhecimento, significados, descobertas, valores, respeito e de transformação, inclusive diante de uma separação, desde que anulemos o depois. Lembre-se: não é você que mata o tempo, é ele que te mata, portanto não deixe nada para a posteridade, sobretudo no seu relacionamento. Vivam o hoje; juntos ou separados, amanhã pode ser tarde.



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