EXISTE RAIVA E INTOLERÂNCIA NO SEU CASAMENTO?

É sabido que nós nos tornamos o que somos por causa de uma presença humana e por alguma razão, em várias situações na vida a dois, sentimos raiva daquela reação que discorda, não pensa e não está de acordo com o nosso modo de ser. Isso é muito comum nas relações de casal e diante dessa situação, o nosso comportamento é reagir à pessoa, sob o pretexto de que ela não está nos permitindo dá construção ao nosso ser. Hoje as pessoas dizem coisas que imaginamos ser apenas uma crença do outro e ao longo do tempo essa crença pode estar sujeita a alguma melhora. Todavia, no transcorrer do tempo, isso pode não acontecer. Por que será?

É possível identificar na raiva uma sensação desagradável que ninguém gostaria de sentir. Isso é óbvio! Mas de onde vem essa raiva? O que ele(a) fala que mexe tanto com você? Isso que ele(a) me diz é uma verdade? Por que diante de uma acusação eu me sinto tão acuado(a)? A raiva nos apequena diante do outro e se não for cuidada, pode se tornar ódio. Mas tem gente que continua a alimentá-la, em troca de quê? Paz? E essa ideia de ter raiva é triste, pois é um modo particular de queda de potência em direção também ao apequenamento da vida.

A raiva é um “tipo de tristeza” que faz faltar à nossa consciência o motivo da sua origem. Diante de um discurso de raiva somos os donos da razão e acabamos por diminuir o outro, deixando-o indisposto, enfraquecido, sem ânimo, deprimido, querendo muitas vezes sumir, em razão do que discursamos como verdade. Mas quem é a parte que mais “perde” neste caso: ela, ele ou nós?

Essa raiva parece ter mesmo um modo e intensidade diferente da tristeza em si. O problema é que para a maioria dos “tipos de tristezas” nós temos um remédio que pode ser comprado nas farmácias e ainda assim requer outros cuidados. E para a raiva, temos remédio? Por que a raiva contamina nossa relação? O que está acontecendo?

A raiva é um sentimento que gera intolerância ou é a intolerância que gera a raiva? A verdade é que ambos escapam ao nosso controle, sobretudo quando estamos dispostos a apenas acusar e não a escutarmos para compreender de onde vem esse sentimento. E se não tomarmos cuidado com ele, pode devastar qualquer relação. É possível que a tristeza ocasionada pela raiva depois de acusar alguém gere culpa, mas o que na maioria das vezes fazemos com essa culpa? Esquecemos ou buscamos melhorias? É importante que as reflexões do casal conectados com o “nós” e não somente com o “eu” traga a oportunidade de explorar esse sentimento. Você já tentou experimentar esse tipo de “remédio”?

Quando passamos por algo que nos “extermina” profundamente, descobrimos a dificuldade em lidar com aquilo e em seguida vem a raiva que gera a intolerância com o outro. A ordem dos fatores altera o produto? Independentemente, a raiva da doença que apareceu de repente, da traição de um amigo de trabalho, da sociedade que não deu certo, da traição do cônjuge, da falta de atenção do pai ou da mãe para com filho em comum, são fatores que nos fazem concluir que a raiva tem causa em qualquer realidade do universo.

Quando imaginamos a galáxia que tem inúmeros astros, certamente, nos sentimos pequenos, o universo nos escapa e ele acaba nos oprimindo. Com a raiva que tem a causa “oculta” há esse mesmo sentimento também, porque ela nos apequena, escapa ao nosso “universo consciente” e acaba oprimindo aquele que divide o mesmo espaço conosco e por consequência nos oprime também. Essa complexidade de ser “alguém”, baseada no discurso da raiva pode ser questionada pela observação das causas que se encontram "perdidas", naquele momento. E para isso, é necessário que estejamos dispostos a nos conhecermos e não apenas a discursarmos nossas “verdades”.

A causa da raiva pode ter relação também com o que ela quer manifestar e comunicar ao mundo, afinal somos humanos e naturalmente esse sentimento pode vir à tona. E quando isso ocorre, não amamos e nem odiamos a outra pessoa, mas somente aquilo que nos alegra e nos entristece na vida, quando, por exemplo, observamos uma notícia nos jornais sobre algo que foge ao bom senso da nossa vida em sociedade.

Às vezes, a raiva pode causar manifestações não pensadas como a passagem de um cidadão pela faixa de pedestre quando estamos com pressa. Neste cenário, é possível começarmos a xingar, a ofender aquela pessoa e ela nada tem a ver com a nossa pressa e muito menos tinha qualquer intenção de nos atrasar mais. Então nossa intolerância com algo, que não é a passagem do pedestre pela faixa, começa a se alastrar pelo mundo. Portanto, neste exemplo, há um tipo particular de raiva que tem a ver com uma agressão à nossa própria identidade que ocorre quando esse tipo de comportamento acontece. E isso nos afeta e faz a gente se desequilibrar daquilo que definimos ser.

Essas características de intolerância e raiva podem ter relações sistêmicas. Imagine que você se apresenta como um frequentador de uma certa religião ou membro de uma determinada torcida de futebol, ou militante de um partido político, ou de alguma instituição que preserva a moral e os bons costumes, e você encontra uma manifestação do pensamento contrária aos princípios da “entidade” a que você pertence, mas que não foi dirigida diretamente a você, contudo sua reação é tomar as dores dessa “ofensa”. Neste caso, houve um ataque que comprometeu um pertencimento que você julga definidor de si e isso te apequena, te entristece, e gera o sentimento de raiva ocasionado pelo rebaixamento do coletivo que você usa como definição de si. O que essa raiva quer dizer?

A intolerância e a raiva têm “discursos” radicais. O intolerante encontra todo tipo de mundo e considera todo tipo de mundo, e acaba interagindo sem refletir. Não descarta nada de ofício e para todas as pessoas tem algo a dizer que, na sua concepção, merece ser considerado e ouvido. E por mais que o discurso alheio mude o seu ponto de vista ele não leva em consideração. O intolerante só aceita o que pensa e sente, e se não tiver alinhado com os seus “valores” não tem valor, por mais que “ame quem ama”. Isso é amor?

É possível conviver com uma raiva e/ou intolerância infinita? Não seria interessante observar a particularidade de cada ser humano, sua história de vida, sua perspectiva e construção perante o mundo. Esse sentimento de raiva e intolerância pode dizer muita coisa se analisado sob a ótica das infinitas crenças que foram aprendidas. Refletir se elas são verdadeiras ou se não requerem consciência e sensibilidade, sobretudo na vida a dois.

Agora, por que o que é pensado pelo outro se torna sempre fonte de crítica e não um produto que pode enriquecer a ambos na relação conjugal? Quando a humildade prevalece, a avaliação crítica pode gerar uma análise enriquecedora. Pense nisso!


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