O AUTOCONHECIMENTO E A ESCOLHA PROFISSIONAL

Conhecer a si mesmo é a primeira recomendação do pensamento ocidental e podemos ampliar esse conceito chegando à seguinte conclusão: se você quiser ter uma vida plena, conhece-te a ti mesmo. E o que isso quer dizer? Qual a relação entre o que pensamos sobre o mundo e o que é o próprio mundo? E diante do autoconhecimento, como você enxerga esse mundo sob o aspecto profissional?

Conhecemos o mundo quando podemos refletir, pensar e enunciar alguma coisa que corresponda ao que ele é ou ao que pensamos que seja. E atribuímos valor quando existe a coincidência entre o mundo pensado e a realidade vivida. Suponha a possibilidade de ter conteúdos de existência, que são aqueles que te trazem sentido, e os equivalentes ao objeto do seu conhecimento, ou seja, o do trabalho executado por você. Como é que este conhecimento pode te gerar existência a fim de coincidirem ambos com a sua realidade laboral?

O conhecimento é recheado de símbolos, palavras, imagens, tudo aquilo que é transitado em nossa mente. Já o mundo não cabe na nossa mente! Só é possível conhecê-lo melhor a partir dessa ocupação da nossa mente. E partindo desse pressuposto, por exemplo, um avião pode não caber na minha mente, sob todos os aspectos que este objeto permeia, mas isso não supõe eu desconhecê-lo sob o ponto de vista da aerodinâmica, da sua empenagem, do grupo moto-propulsor, enfim, ter uma noção das suas características aeroespaciais.

Continuando a pensar sobre a aviação, o conhecimento que tenho do avião não contempla todo o objeto do conhecimento, em razão de outras características aeronáuticas que desconheço, mas ainda assim eu o fiz voar num curso de piloto privado pelo Aeroclube de Brasília, pois almejava ser piloto de linha aérea, naquela época. E a partir dessa analogia, como chegar a essa existência, que te traz sentido, diante do conhecimento, que te traz trabalho, para te fazer “voar” por influência do seu ofício?

Se você olha para um avião e tem a ideia de que o conhece, o primeiro avião surgiu em 1906 com Santos Dumont, por que o homem examina isso até hoje? E diante desse conhecimento secular, é possível afirmar que jamais um avião cairá na face da Terra? Observe que apesar do homem conhecer bem as características de um avião, ao longo de mais de um século de atualização, ele ainda não é capaz de impedir a sua queda. E por que você almeja prevenir sua “queda” diante de uma escolha profissional, sem se observar? Vou além: você acha que aquele que exerce um trabalho com sentido está imune a ter “quedas” profissionais?

O trabalho está em fluxo, está em trânsito, em transformação e o conhecimento precisa acompanhar esse fluxo, assim como se encontra o avião, ainda hoje. Mas muitos preferem parar no tempo, por quê? E diante desses questionamentos, prossigo: o que você está fazendo para tornar-se um notável conhecedor de si mesmo, sob o ponto de vista da sua escolha profissional? Esperando viver mais de um século para ficar mais atualizado, como ocorre com o avião? Isso é possível e resolve sua vida, hoje, sob o aspecto da busca de sentido profissional?

Nossa realidade exterior muitas vezes é diferente da nossa mente e quando é semelhante, às vezes não agimos e deixamos esse conhecimento partir com o que transita no mundo extrínseco, e não anunciar e praticar o que habita em nosso mundo interior. E perante esses dois mundos, exterior versus interior, como fica o que sentimos e o que pensamos ante o nosso trabalho? O seu pensamento atingiu, atinge ou atingirá o seu objeto de conhecimento profissional de forma global? O avião do homem atingiu?

Quando alguém sente, pensa e produz algo por meio do pensamento, o conhece-te a ti mesmo, diz respeito à especificidade da sua integração sensorial e reflexiva, da sua integridade interior em busca de algo que te faça sentido. Então, qual é o problema de se conhecer melhor? De onde pode vir essa necessidade, do seu mundo externo, interno ou de ambos? Já pensou em observar suas riquezas, virtudes e fraquezas, e explorar essa sua natureza humana em busca da sua maior potência profissional?

Qualquer um de nós consegue se dar conta da vida que vive, se estiver em pleno gozo das próprias faculdades mentais, e a depender do mundo em que você se encontra, você pode ser afetado ou não por certas sugestões, conceitos e tipos de comportamentos. O receio de não fazer uma escolha certa, a insegurança em mudar daquele emprego que não te faz sentido, do curso que você está no final ou acabou de concluir, a interferência da sociedade, dos pais, da família, marido, esposa, amigos, a falta de reflexão, entre outros, são questões que podem te direcionar para um processo de autoconhecimento, mas é mesmo necessário você aguardar esse “empurrão” da vida? E se não acontecer isso?

Portanto, a depender do mundo com o qual interage, interno ou externo, você pode ser forjado, esculpido ou constituído como um ser que vive em função de certa peculiaridade que talvez não seja a sua. E perante ao que foi demandado até aqui, finalmente, eu faço a derradeira pergunta: será que um processo de autoconhecimento faz ou não faz o seu “avião” decolar diante de uma escolha profissional?





Dedico esse artigo aos meus amigos da aviação, diretos e indiretos, em especial, ao amigo Cornélio, in memoriam.

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